domingo, 20 de outubro de 2013

Policia Militar discute violência policial


Evento com filósofo traz alternativa ao 'pé na porta'

Discutir a "violência interior" em um evento organizado junto com o jornalista e filósofo Adauto Novaes e a FLUPP (Festa Literária das UPPs) foi a forma encontrada pelo coronel Íbis Pereira para levar aos futuros policiais uma alternativa de pensamento contrário à cultura do "pé na porta" ainda amplamente vigente no país.

"É muito difícil mudar essa cultura. A nossa PM não é muito atrativa, ainda é formada por jovens de classe média baixa. Precisamos ter gente que não se deixa contaminar pela violência", diz.

Rony Maltz

PMs assistem palestra do filósofo francês Frédéric Gros, na Academia Dom João VI, na zona oeste do Rio de Janeiro

A Folha assistiu a duas das 12 aulas ministradas aos soldados e futuros oficiais. Numa, o filósofo francês Frédéric Gros reconheceu, a uma plateia de 450 jovens: "É sempre assustador estar diante de jovens com uma função tão difícil. Falar em violência policial é sempre insuportável", afirma.

Gros lembrou em 1 h 30 de conversa que as raízes internas da violência passam pela desconfiança, pelo medo, pela paixão e pela glória.

Na plateia, os jovens querem saber como agir, por exemplo, diante das manifestações. Íbis entra no debate. Diz que a grande dificuldade, nesse caso, é que ela é praticada por dois lados -policiais e mascarados.

"Se fosse só a violência policial era fácil de resolver: acabava-se com a polícia. Mas é muito mais complexo que isso. Precisamos buscar estratégias, não apenas o Batalhão de Choque", afirma.

A iniciativa de juntar policiais e filósofos em um mesmo ambiente não foi fácil, mas acabou elogiada.

"A aceitação é difícil, ainda mais com uma garotada que sonha em ser o capitão Nascimento", diz o filósofo e jornalista Adauto Novaes.

"Tomara que a prática se repita e assim criarmos uma cultura na corporação", diz o historiador Julio Ludemir.

O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, é um dos entusiastas da linha do coronel Pereira. "O coronel Pereira e o Antônio Carlos Carballo são excelentes cabeças. São vários como eles numa corporação de 50 mil pessoas. Esse é o problema: uma coisa combinada no gabinete, às vezes, não chega às ruas", reconhece.

Hoje diretor de ensino da PM, o coronel Íbis chegou a coordenar a Escola de Formação de PMs. Em 22 meses, fez da biblioteca da escola uma referência na zona oeste do Rio. "Ninguém entende mais do lado sombrio da alma humana que Dostoievski. O policial precisa saber disso para se entender", afirma.


Para coronel do Rio, livros podem evitar a violência da PM

Marco Antônio Martins

Diante da correria do quartel central da Polícia Militar do Rio, o coronel Íbis Pereira, 50, desce de um carro particular em trajes civis.

Sua figura de pouco mais de 1,60 m, voz pausada e ar professoral nem parece ser o expoente de uma geração que busca novos rumos para a corporação, envolvida em uma série de denúncias nos últimos três meses -de truculência em manifestações à tortura e morte do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, 43, na Rocinha.

Crítico do que chama de "Bopelatria", a veneração de jovens pelo Bope, o Batalhão de Operações Especiais famoso após o filme Tropa de Elite (de 2007), o coronel cita filósofos e pensadores modernos para defender que as manifestações têm tudo para transformar não apenas a sociedade, mas também a própria polícia.

"Só o pensamento pode enfrentar essa barbárie. Vivemos um ódio que explode dos dois lados", diz o diretor de ensino da PM. "A polícia precisa aprender a lidar com isso. Acertar mais a mão."

Esta é uma das teses do coronel, para quem o pensamento evita a violência policial. "Pensar dói", diz, apelando a Fernando Pessoa.

O coronel levanta uma série de "poréns" a práticas atuais da polícia.

Não esconde, por exemplo, seu incômodo com o símbolo do Bope, a caveira. Se pudesse, acabaria com a imagem, garante ele.

"É impressionante como uma crítica à violência se tornou um glamour. Uma Bopelatria", analisa Pereira.

O coronel sugere: "Trocaria por algo que representasse a agilidade, a destreza. O símbolo traz a ideia da transcendência. É associado à guerra. Não pode ser da polícia."

Libertação

Filho de uma dona de casa e de um pai ferroviário, que não chegou a conhecer, o coronel foi criado no bairro de Anchieta, subúrbio na zona norte da capital fluminense.

Influenciado pelas ideias da Teologia da Libertação, diz adorar a "militância cristã". Até hoje, usa um anel de tucumã num dedo da mão direita, adereço comum a católicos praticantes.

O coronel Pereira ingressou na PM em 1983, influenciado pelas ideias do antropólogo Darcy Ribeiro e do então comandante-geral Carlos Nazareth Cerqueira, um dos primeiros oficiais no país a defender uma "polícia próxima ao cidadão".

Formou-se em direito e filosofia. Agora, faz um mestrado em história na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

"A dignidade da pessoa não é valor no Brasil. É apenas retórica, discurso. A pessoa vomita isso, mas não acredita. Os direitos humanos são um conceito em crise", avalia o policial.

As ideias do coronel são compartilhadas por um grupo fiel de cerca de 50 seguidores. Um deles é o também coronel Antônio Carlos Carballo, com quem divide o ideal de que a literatura pode convencer a corporação da polícia dos benefícios de se evitar a violência.

"Isso humaniza todos eles, cria um pensamento", diz, citando os escritores Machado de Assis, Guimarães Rosa e o russo Dostoievski.


Folha SP

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