quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A pernada da globalização


Wagner Braga Batista*


Uma foto parece-nos mais contundente do que a imagem do menino morto na praia de Tobrun, na Turquia. Trata-se da traiçoeira rasteira aplicada por jornalista húngara, que leva ao chão um pai e seu filho de colo, migrantes.


Fugiam da guerra, do genocídio e da fome. Corriam em direção ao abrigo, no primeiro mundo, que, certa feita, sinalizou a superação das barreiras, das diferenças sociais e dos litígios. Derrubados pela pernada, dias depois, deploravam a traiçoeira globalização.

Esta foto repõe em nosso imaginário suas promessas.

Não diz respeito apenas à violência explicita e escancarada, mas à violência subliminar, oculta em consensos fabricados, na manipulação de expectativas, em insidiosas armadilhas políticas, praticadas em escala regional, mundo afora. Prometiam o primeiro mundo e encetaram continua supressão de direitos e o desmonte de conquistas sociais..

Não retrata surtos localizados e sazonais, mas incontroláveis ondas migratórias, desencadeadas por insuperáveis condições de carência. Provocadas por efeitos devastadores de ações bélicas, disseminadas por todo mundo, viabilizaram a supremacia econômica e militar norte-americana. A violência subliminar da restauração liberal, que perdurou quase quatro décadas.

O estratagema não mudou. Apelando a razões humanitárias, as intervenções escondiam seus verdadeiros objetivos. Ora a ocupação de áreas estratégicas, ora o butim de reservas naturais de países ocupados militarmente.

Na transição do século XX, a política externa adotada em anos precedentes na América Latina, inspirada na Doutrina de Monroe, espalhou-se mundo afora, na Ásia, África e Oriente Médio.

Governos ditatoriais, “os nossos filhos da puta”, nas palavras de Alan Foster Dulles, Secretário de Estado, irmão de John Foster Dulles, diretor da Central of Investigation of América- CIA, controlador de grande empresa exportadora norte-americana, foram substituídos pelos Estados Atualizados. Neles, implantou-se artificiosamente os responsáveis pela conciliação de objetivos indeclináveis. Implementados pela fina sintonia entre diretrizes da política externa norte-americana e interesses paroquiais de grupos conservadores, hegemônicos regionalmente.

Como reação a este condenável conúbio, a selvageria insurgente apresentou-se como resposta. O corte de gargantas e a destruição de patrimônio civilizatório, que também fora esterilizado e empastelado pela cultura globalizadora. Em igual medida, tão hedionda quanto às intervenções fundamentalistas subsequentes. Aliaram-se e, agora, munidas de poderosos arsenais bélicos, patrocinam o caos. Cada qual à sua maneira.

Nos anos 1990, após o colapso do socialismo real e a queda do muro de Berlim, no Brasil e por toda América Latina padecemos estas artimanhas. Agravando drásticas políticas neoliberais, confrontamos as falsas promessas da globalização. No plano continental ensejavam a eliminação de mecanismos protecionistas e a diluição de barreiras. Formularam tratados que proporcionariam paridade nas relações de intercâmbio. Por meio do Acordo de Livre Comércio da América do Norte - NAFTA, constrangeram a economia do México, submetendo-a à dinâmica unilateral, predatória e espoliativa de grandes corporações norte-americanas.

Em 1994, tentaram ampliar esta estratégia dissuasória para a América Latina por intermédio do Acordo de Livre Comércio das Américas- ALCA. A emergência de governos populares em todo continente barrou esta ação espoliativa. Certamente condenaria ao confinamento quase um bilhão de habitantes destes continentes.

O que assistimos na Europa, em menor projeção, também podemos observar em fluxos migratórios procedentes da Guatemala, San Salvador, Haiti, Porto Rico, México, entre outros países. A livre circulação, assegurada em plenitude ao capital financeiro, não tem rebatimento na mobilidade de populações carentes, que buscam escapar de condições adversas de vida.

Nos EUA, contingentes de adolescentes, que procedem de países da América Central, são confinados em depósitos de seres humanos cognominados clandestinos. Os que nos falavam em padrões universais de cidadania, hoje desvelam sua desfaçatez na porta de desembarque de seus aeroportos. Neles, dois corredores nos distinguem. Há os cidadãos, norte-americanos, e os habitantes do resto do mundo sem lugar nas suas fronteiras.

Os que denunciavam a cortina de ferro e o muro de Berlim, hoje patrocinam muralhas instaladas em Israel e ao longo das fronteiras do sul dos Estados Unidos. Na Califórnia e às margens do Rio Grande, migrantes são caçados como coiotes

Os mediterrâneos espraiaram-se. Como encomendas são entregues em periferias urbanas e regiões agrestes. Estendem suas praias pelas orlas empobrecidas da exuberante, prodigiosa e receptiva economia de mercado.

Os que conseguem transpor estes mediterrâneos, esbarram com sucessivas e intermináveis fronteiras.

No Brasil, no inicio do século XX, esvaziamos nossos aterradores mediterrâneos. Superamos, parcialmente, a política de submissão externa. Com altivez , o país se abriu. Receptivo e solidário, exerceu relações multilaterais, valorizou a integração latino-americana, a aproximação com economias emergentes, contribuiu positivamente para o soerguimento de países africanos e acolheu migrantes de várias partes do mundo..

Muros sucessivos, intermináveis e intransponíveis são indispensáveis a sistema econômico que transforma desigualdades e diferenças em forças motrizes de sua expansão.

Diversamente do que nos dizem, suas monstruosas barreiras são inevitáveis, posto que resguardam suas assimetrias. Sob o abrigo de suas horripilantes criações viabiliza sua sobrevida alimentando-se de indigesto protecionismo de suas fronteiras, do armamentismo desenfreado, da criminalização dos mais fracos, da industrialização da barbárie, da perpetuação da pobreza e das suas desigualdades.

Suas sucessivas e intermináveis fronteiras impedem que migrantes transponham as verdadeiras barreiras do capitalismo. Que deserdados tenham acesso às portas da cidadania plena.

Aqui e ali, alguns escapam da fome e da guerra em seus países de origem, para se defrontar, adiante, com a guerra de classes, o ódio e a segregação nos países em que aportam. Onde, ante à indigência politica e ética de opulentos donos do mundo, submergem em novos naufrágios.

* Wagner Braga Batista é professor aposentado da UFCG

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