quarta-feira, 9 de março de 2016

D. Marisa: os donos do poder nunca os deixariam viver lá

 
 O 59º  Urso

A socióloga Maria Victória Benevides disse numa reunião no Instituto Lula, na sexta-feira passada (12), que as acusações de que o ex-presidente teria recebido benesses de empreiteiros estavam minando sua honra. Para ela, as denúncias têm motivações "político-eleitorais".

"Não discuto questões pessoais em reuniões do instituto e do partido", lhe respondeu Lula. Como o instituto e o PT não fazem outra coisa senão defendê-lo, o ex-presidente acrescentou outra curva ao caracol de declarações sinuosas dos últimos meses. Tanto que nesta segunda-feira (15) ele se reuniu com o conselho político do PT para, justamente, responder os ataques.


Mario Sergio Conti 

Tal tortuosidade faz com que o futuro –o desenlace da crise– seja totalmente opaco. Até o passado perdeu nitidez. Pouco se ouvia falar de Marisa, por exemplo. E hoje ela é vilipendiada por ter pagado prestações de um apartamento nas Astúrias e comprado um barco para o sítio de Atibaia.

A única vez que Marisa falou longamente foi à Denise Paraná, que recolheu a entrevista no livro "Lula, filho do Brasil". Ali ela diz que foi a décima e penúltima filha de um casal de sitiantes pobres, de famílias vindas da Itália.

Começou a trabalhar aos nove anos, como babá. Aos 13, embalava bombons na fábrica Dulcora. Largou a escola no ginásio e se casou aos 19 anos, com um chofer de táxi que viria a ser morto pouco depois num assalto. Estava grávida de seis meses.

Casou-se com um metalúrgico, Lula, e passaram a lua de mel em Poços de Caldas. O passado torna crível o que Marisa teria dito ao marido na primeira vez que viu o Palácio da Alvorada: os donos do poder nunca os deixariam viver lá. Não obstante, lá moraram oito anos.

Essa história lembra o 59º urso de dois poetas, a americana Sylvia Plath e o inglês Ted Hughes. No final dos anos 50, eles passaram a lua de mel no Parque Yellowstone. Eram tantos os bichos que apostaram US$ 10. Ele profetizou que veriam 71 ursos; Sylvia Plath arriscou 59.

Fofos, os animais pareciam vindos da Disneylândia. Levantavam as orelhas de pelúcia na janela dos carros. No centro de rodas de risos e Kodaks, comiam na mão de crianças. À noite, reviravam latas de lixo nos acampamentos onde os dois poetas armavam sua tenda. Viram 20, 30, 40 ursos, sempre dóceis e brejeiros.

Até que numa noite um urso virou o carro deles pelo avesso, arrancando forros, estofados e molas. Hughes pegou uma machadinha, mas não saiu. Aterrorizado, o casal ficou na cabana, ouvindo a demolição. Viram de relance as garras selvagens deslizarem na lona da tenda. Elas estavam na ponta de um braço que se movia com fúria veloz.

A besta bateu e espremeu, esmagou e arranhou até que, ao raiar do dia, os ruídos de um guarda-florestal o afugentaram. Era o 59º urso que contavam. Sylvia Plath foi ao banheiro do acampamento. Uma mulher lhe contou que aquele mesmo urso, pardo e grande, horas antes trucidara um homem do outro lado da mata.

Nos anos no Alvorada, Lula e Marisa ficaram amigos dos donos do poder. Frente ao casal que tinha comida, os ursos se fingiam de afáveis. Depois, passaram a revirar suas tralhas. Em breve virá o 59º urso. O seu cérebro está eletrificado pela fome de mando. Suas patas terão o peso de guindastes. Suas garras serão de aço quando roçarem o papel de seda de um rosto humano.


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