quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Nossas empregadas domésticas


Diferenças domésticas

Nesses três anos de Paris, há assuntos sobre o Brasil que aprendi a evitar na companhia de franceses – e o principal deles, por incrível que pareça, não trata da corrupção endêmica dos nossos políticos: é a relação que a classe média brasileira mantém com nossas empregadas domésticas.

Não há argumento que justifique nem explicação econômica, histórica ou sociológica que os convença.

Para os franceses, o hábito de ter um funcionário que se ocupe de cozinhar, lavar, passar, limpar e tomar conta das crianças rotineiramente, como acontece na maior parte das nossas casas, é próximo demais da escravidão para ser tolerável no mundo de hoje.

Tirando uma fatia ínfima da população que ocupa o topo do topo da pirâmide, ninguém por aqui tem empregada doméstica.

Muitos têm babás, que normalmente se ocupam das crianças por três ou quatro horas por dia, entre a saída das aulas e volta dos pais para casa. Alguns têm uma diarista, que garante duas ou três horas semanais de faxina, para “tirar o grosso”.

O resto – fazer compras, preparar o jantar, dar banho nos filhos, dar uma limpadinha na casa, deixar tudo pronto para o dia seguinte – é integralmente assumido pelo dono da casa, ao fim de seus dias cansativos de trabalho.

Mais ou menos como acontece no Brasil na rotina das nossas empregadas – e da população de baixa renda em geral, que não pode se dar ao luxo de terceirizar esses cuidados.

Uma diferença importante é que, por aqui, os homens são educados para colocar a mão na massa desde cedo, assumindo uma parte das tarefas – uns cozinham, outros lavam o banheiro, outros são religiosamente responsáveis pelo banho dos filhos.

Dos franceses para quem me atrevi a tentar explicar a logística brasileira do cuidado de uma casa de classe média (que muitas vezes conta com empregada, babá, não raro faxineira e passadeira ocasionais), metade me ouviu com inveja – e a outra metade com o maior desprezo.

Para esses, a parte mais detestável do discurso que muitos de nós repetimos é a tal história do empregado como “parte da família” – argumento que eu também passei a ver como hipocrisia fantasiada de caridade.

Imagine se eles soubessem da falta de regulamentação da jornada de trabalho dos empregados domésticos no Brasil.

Confesso: omito essa parte por pura vergonha do atraso impresso nas leis do nosso país.

Carolina Nogueira
Blog do Noblat

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