quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O que resta da universidade?

Vladimir Safatle

É claro que a universidade não tem mais lugar no interior do processo de reprodução material da vida. Em uma dinâmica de produção de empregos em que os estratos médios são constantemente eliminados a partir de processos de reengenharia contínua, em que os empregos de nível salarial mais baixos são, ao mesmo tempo, precarizados e elevados em seus padrões de exigência de formação e no qual os estratos mais elevados são oligarquicamente garantidos (ou seja, eles são alcançados independentemente da formação dos seus ocupantes), é uma das maiores mistificações de nossa época insistir no binômio formação/empregabilidade. 





Para além de um conjunto de empregos de condições e salários cada vez mais deteriorados, a universidade não pode garantir ascensão social ou simplesmente sobrevivência econômica. Os processos de formação necessários para operar no interior de nosso sistema econômico são, em larga medida, limitados, pontuais e de rápida absorção. Ou seja, eles poderiam ser feitos sem universidades, de forma menos onerosa, através de centros de formação. Os setores fundamentais da economia mundial e os atores reais da economia nacional sabem que podem sobreviver sem universidades. Eles podem sobreviver com uma educação disciplinar, unidimensional e vinculada apenas à expectativa de valorização simbólica fornecida pela educação superior.



A pequena camada responsável pela organização estratégica da economia e da gestão social pode ser formada em centros de excelência construídos para poucos em países centrais, coisa que a elite brasileira tem feito sistematicamente ao mandar seus filhos diretamente para estudar fora do país. Mesmo o desenvolvimento de pesquisas capazes de projetar cenários e permitir circular múltiplas perspectivas de interpretação em conflito perde o sentido em um modelo de inserção capitalista no qual as elites locais perderam suas ilusões de se constituírem como burguesias nacionais e aceitam melhor serem representantes de modelos de integração global cujos processos decisórios se dão muito longe daqui.



Neste horizonte, a universidade parece perder seu lugar. No entanto, talvez seja o caso de acrescentar mais uma variável a este quadro. Uma variável muitas vezes negligenciada, no entanto absolutamente central. Pois a perda de lugar da universidade ocorreu, principalmente, porque saiu de cena a crença na necessidade de modelos de gestão baseados na conciliação e integração de setores da população potencialmente desestabilizadores, como os trabalhadores pobres (geridos através de sindicatos em relações solidamente estratégicas com o Estado), pequenos camponeses e a classe intelectual (alocada em universidades garantidas pelo Estado). O que nos leva à seguinte equação: a universidade perdeu seu lugar porque a classe intelectual deixou de ser um problema. Somente enquanto ela foi um problema potencial, devido a sua capacidade de mobilização, de tensionamento social, de constituição de pautas no interior da opinião pública, a universidade foi preservada. Quando isto saiu do horizonte, a universidade se tornou descartável.



Sabemos que a história da universidade como instituição é uma história recente. Até o começo do século 19 seu lugar era, em larga medida, o de um centro de formação. Os principais pensadores e cientistas não eram professores universitários, não tinham cátedras. O debate intelectual e artístico ocorre, em larga medida, fora de seus muros. O modelo de Wilheim von Humboldt (representado pela fundação da Universidade de Berlim, em 1809) pode se impor nas sociedades ocidentais não apenas por prometer realizar expectativas de emancipação através de uma formação de cunho humanista, mas principalmente por saber se colocar como peça fundamental de constituição da adesão social e desenvolvimento técnico do recente Estado-nação, assombrado pela possibilidade de sedição interna produzida pelo contágio dos ideais da Revolução Francesa. A integração da classe intelectual à universidade será uma forma de responder aos riscos de sedição que a circulação de ideias de transformação radical representava. Não por outra razão, uma impressionante quantidade de intelectuais radicais verá as portas lhe serem fechadas no interior da universidade alemã do século 19: Feuerbach, Bruno Bauer, Marx. Pois a integração terá sempre que lidar com certos limites que só poderão ser incorporados tempos depois, através de caminhos tortuosos.



Não se trata aqui de fazer uma história da universidade e dos modos de gestão social a partir da constituição do Estado-nação. No entanto, gostaria de trazer uma hipótese que pode nos auxiliar a debater a situação na qual nos encontramos atualmente. Pois podemos dizer que este modelo de gestão social demonstrou-se particularmente falho em 1968. Há uma exacerbação da tensão universidade/Estado a partir de maio de 1968 e, de certa forma, muito de nossa situação pode ser lida com base neste pano de fundo. Pela primeira vez de forma clara, as universidades se colocam como espaço de produção de revoltas contra os modos hegemônicos de reprodução material da vida.



Lembremos como, durante certo tempo, o modelo do Estado do Bem-Estar Social, gerado a partir do final da Segunda Guerra, com seu capitalismo de estado, fora visto como uma espécie de modelo perfeito de gestão de conflitos sociais. Friedrich Pollock, em um ensaio clássico, insistia na tese da passagem inexorável de um “capitalismo privado” para um capitalismo de alta regulação estatal, fosse ele totalitário (nazifascismo) ou democrático (social-democracia). Capitalismo no qual as decisões econômicas estariam submetidas à orientação política das deliberações de gestão e limitação da força de transformação dos conflitos de classe. Pollock chega a falar em uma substituição de problemas econômicos por problemas administrativos, criando um horizonte “racional” de gestão de conflitos sociais graças às promessas de integração da classe trabalhadora devido à consolidação de uma lógica da providência e da assistência social generalizada que teria a capacidade de limitar os processos de espoliação econômica. Neste horizonte, a função das universidades era garantir a ascensão social e fornecer um espaço regulado de liberdade de pensamento.



Neste sentido, maio de 1968 demonstrará a fragilidade desta crença da possibilidade de regulação de conflitos no interior de um capitalismo de estado. Pois ele mostrou como as formas de regulação da classe trabalhadora não foram capazes de impedir a consolidação de revoltas nos países centrais. Revolta esta que visava ao caráter disciplinar deste mesmo Estado-providência outrora visto como o modelo perfeito de gestão social. Ou seja, as revoltas de maio de 68 e a força de sedição de seus conflitos mostraram os limites das promessas de integração do capitalismo de estado e de suas estratégias de providência. Os próximos modelos de gestão nas sociedades de capitalistas, se quisessem ter eficácia real, deveriam operar de outra forma. Estava evidente a impotência do discurso de integração através da identificação com a figura do cidadão do Estado-nação comum. Seria necessário deslocar os processos de regulação social para uma outra cena.



Mas, para tanto, seria necessário paulatinamente neutralizar a universidade e sua classe de intelectuais, quebrar sua força de mobilização social e empurrá-los paulatinamente à obsolescência. Muito haveria a se dizer a respeito destes processos que ocorreram principalmente a partir dos anos de 1980. Eles responderam a múltiplos ritmos e a dinâmicas específicas em vários países. Um país que tinha uma presença forte da classe intelectual na vida nacional, como o Brasil, não poderia seguir os mesmos processos que países de configuração social distinta. Esta análise, no entanto, ainda está por ser feita.



No entanto, seria o caso de insistir aqui, e isto vale como uma crítica que é também uma autocrítica, como tais processos não poderiam ocorrer sem a demissão da classe intelectual de sua função histórica de responsável pelo tensionamento de processos políticos. A classe intelectual contemporânea tende a esconder sua demissão política por meio da pretensa crítica a desejos de “dirigismo” e a crítica a uma política baseada na crença da força indutora de “vanguardas letradas”. Todos nós conhecemos as críticas feitas pelos próprios intelectuais a seu pretenso papel dirigista. Não há, no entanto, processo político sem um ato de nomeação do acontecimento – ato que exige a mobilização da capacidade da classe intelectual de criar ressonâncias espaço-temporais e, assim, redimensionar dinâmicas sociais. Uma nomeação não é simplesmente uma descrição, ainda mais quando estamos a falar de processos políticos populares. Ela é um ato performativo que redimensiona a capacidade de transformação dos agentes.



No entanto, a demissão política dos intelectuais foi o resultado da convergência de três fatores. Primeiro, vivemos em um movimento global de bloqueio das relações entre universidade e sociedade civil. Isso se deve a uma forma de gestão social que promete aos intelectuais a ascensão ao posto de consumidores de serviços globais, graças à internacionalização das universidades e à submissão delas a processos de avaliação cujos métodos são tão opacos quanto dignos do Pai Ubu. Todos nós sabemos bem como os processos de avaliação são indefensáveis não porque não devamos ser avaliados, mas porque eles não medem nada de maneira precisa. Como esperar avaliação racional se submetemos aos mesmos critérios universidades de massa, com mais de 100.000 alunos e universidades de formação de elite, com não mais do que 10.000 alunos? O que significa realmente medir “impacto” através de incidências de citações? O que dizer de sistemas de avaliação de publicações que não levam em conta livros? Como medir a influência de uma universidade no interior da vida nacional? Ou qual o sentido em esperar níveis de circulação de estudantes estrangeiros da ordem de 25% em países que ainda precisam encontrar formas de integrar largas camadas de sua população ao sistema educacional superior?



No entanto, a submissão a tais sistemas opacos de avaliação levou as universidades a se transformarem, no melhor dos casos, em “guetos de luxo”: um misto de agências de viagens para colóquios internacionais e consumo de produtos culturais globais com espaço para a produção especializada de um saber cujos resultados, muitas vezes, não são sequer publicados na língua local de seus países, já que a transformação do inglês em língua franca implica retornar a uma situação medieval na qual a classe intelectual não pode mais ser lida pela população nacional da qual ela faz parte, um pouco como na Idade Média e seus pensadores que escreviam em latim. Com isso, os intelectuais foram, cada vez mais, perdendo relevância como referências para a reflexão da sociedade sobre si mesma. Quando as universidades não se submetiam diretamente a estes modelos, elas sentiam o risco de serem jogadas à invisibilidade e irrelevância.



O Brasil, que conheceu no passado gerações de intelectuais públicos de forte capacidade de influência no interior da vida social, viu seus professores universitários, em larga medida, se demitirem dessa função, como se sustentá-la fosse expressão de alguma forma de “ausência de rigor” e diversionismo em relação às atividades acadêmicas pretensamente reais. Melhor teria sido se a classe intelectual tivesse sustentado o tripé político que a ela compete, a saber, trabalho de base com setores desfavorecidos e vulneráveis, luta pela conquista da opinião pública através da ocupação da imprensa e articulação internacional em redes de pesquisa, tendo em vista a análise de processos político-sociais globais.



No entanto, se estes são fatores que podem ser encontrados em praticamente todos os países com classe intelectual relevante, há um fator eminentemente local que merece nossa avaliação. Ele se refere à relação profunda entre classe intelectual e gestão do Estado brasileiro. A Nova República serviu-se da classe intelectual como um dos setores mais importantes para o fornecimento de seus quadros de gestão. O Brasil viu, nos últimos vinte anos, uma impressionante quantidade de intelectuais se transformar em presidentes da República, prefeitos, ministros e secretários de Estado. Normalmente, eram intelectuais que se serviam do discurso do “é necessário fazer alguma coisa”, “temos uma responsabilidade para com o país”. Entretanto, isso nunca significou entrar no Estado para implodir por dentro sua estrutura arcaica. Na verdade, tratava-se de fornecer ao Estado um melhor discurso de justificação de seus arcaísmos, além de produzir ajustes em seu funcionamento isto quando não acabávamos vendo estratégias de garantia de benesses de consultorias e assessorias. Os intelectuais não transformaram o Estado brasileiro, eles se integraram a ele.



Por fim, do ponto de vista político, o esforço do setor hegemônico da classe intelectual brasileira pareceu ter se esgotado com a eleição de Lula. Boa parte dos descaminhos do governo foi colocada na conta da legitimidade dos intelectuais que um dia o apoiaram ou que continuaram a apoiá-lo. O simples abandono do apoio não foi uma operação bem-sucedida. Como os intelectuais não tiveram discernimento suficiente para imaginar o que poderia ocorrer? Teria sido necessário fazer uma autocrítica que nunca aconteceu. Por outro lado, a repetição reiterada do lado bem-sucedido do governo soava, para muitos, como estratégia para diminuir a força crítica diante dos erros, que não eram mais comentados no espaço público, devido ao medo de instrumentalização pela mídia conservadora.



Aos poucos, parte da mídia criou seus próprios intelectuais conservadores, repetindo, algumas dezenas de degraus abaixo, um fenômeno que os franceses viram nos anos 1970, com os nouveaux philosophes. Como se não bastasse, o próprio governo foi paulatinamente se afastando da órbita dos intelectuais de esquerda. Assim, reduzindo a força dos movimentos sociais e a capacidade crítica e de mobilização da classe intelectual, a situação só poderia ficar à deriva.



Assim, há de se admitir que a única possibilidade de sobrevivência da universidade passa por nossa capacidade de recuperar a força de mobilização e influência, ou seja, de sermos um setor da sociedade civil capaz de criar problemas. Se é fato que a universidade procura ser espaço de circulação do desejo de saber como condição fundamental para a consolidação da crítica, que ela defende o desejo de saber como condição para a crítica, então há de se perguntar se temos as condições reais de desenvolver a força emancipatória de tal desejo. Saber defender um certo desejo: esta é talvez nossa tarefa efetiva. Pois da universidade, resta apenas um mal-estar em relação às imposições do presente. No entanto, este mal-estar é o que nossas sociedades têm de mais real.



(Revista Cult, Ed. 227. Ago/2017)



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