sexta-feira, 27 de maio de 2016

Temer é só um passo para o Estado Policial?


Fernando Brito
Certamente não são muitos os que percebem que a ascensão de Michel Temer ao poder é apenas um passo na caminhada de um projeto autoritário para o Brasil.

Aliás, talvez poucos o percebam tanto quanto os beneficiários momentâneos desta monstruosidade, eles próprios ameaçados todo o tempo porque, pior parte da lama que tomou conta da política – e não apenas dela – no Brasil, sabem que são reféns da fúria destruidora que ajudaram a despertar.


Tornamo-nos um país estranho, onde, para argumentar, acaba-se por ter a obrigação de fazer uma inútil declaração de honestidade, porque qualquer reparo que se faça a este furor passou a ser visto como sinal de que as ideias sejam fruto de quem as têm estar também metido na ladroagem.

E nem duvido que, diante de crítica, a camada jurídico-policial que já detêm boa parte dos cordéis que dirigem este país mande esquadrinhar a vida do infeliz que tenha tido a imprudência de questionar a divindade deste novo e curioso Santo Ofício que caminha para nos governar.

Porque é isso o que estamos vivendo, uma nova e autoproclamada Santa Inquisição.

Começou-se por agitar na praça pública da mídia os crimes de ladrões como Alberto Yousseff – o ladrão de incubadora, cevado desde 2004 por sua primeira delação premiada a Sérgio Moro – e Paulo Roberto Costa – o ladrão de carreira, como frequentemente os há em qualquer grande empresa, quando o poder de decisão e de acumpliciamento a interesses políticos deixa ao alcance da mão o poder de enriquecer, amanhã devidamente acobertado pelo “sucesso na iniciativa privada” que alcançará depois que a deixar.

Entrou-se daí na corrupção que coloca na mesma gamela empresários (mais, empreiteiros!) e políticos, duas substâncias que, misturadas, produzem sempre resultados que variam da geléia ao pântano.

Neste processo, foi sendo construída a legitimidade de uma nova classe de poderosos: os homens de polícia. Não só os de baixa extração, como simboliza-os perfeitamente a figura do “Japonês da Federal”, metido em obscuras histórias criminosas, mas também os mais ascéticos e escanhoados, como os promotores de Curitiba e seu chefe brasiliense, Rodrigo Janot. E a isso, espertos como são os homens das leis, foi se aderindo todo o Judiciário.

Os “heróis” do Brasil deixaram de ser os que fazem – pontes, escolas, progresso, estradas, usinas, navios, bem-estar social – e passaram a ser os que desfazem reputações, empresas, programas, governo, empregos…

Alega-se que, com o dinheiro surrupiado na corrupção, para usar a mesóclise que passou a soar “cult”, poder-se-ia fazer mais escolas, mais hospitais, deitar-se mais asfalto às ruas, mais lâmpadas aos postes, erguerem-se amis casas aos pobres.

É verdade, claro.

Só que o remédio que aplicam – e está visto nos fatos – é fazer tudo parar. E os já poucos hospitais e escolas tornam-se nenhum, o asfalto fica no pedrisco porque deus-me-livre de lidar com empreiteiras, as casas ficam no papel, porque não há mais dinheiro, pela paralisia total do país, como os navios ficam nos estaleiros, as pontes nos pilares, o Brasil na sua “vocação” que as elites sempre lhe atribuíram, de país pobre, como se a pobreza irreversível não fosse o pior crime que se pode cometer não a um, mas a milhões de seres humanos.

(a esta altura do texto, as mentes miúdas já estão no “ih, este aí está defendendo a corrupção”, o “rouba mas faz”, deve estar no “esquema”. Peço desculpas aos moralistas de botequim e aos éticos de banca de jornal, mas não estou)

Curiosamente, no elevado sentido ético-moral que move nossos novos Cruzados há algo em que não se pode tocar e que se virem para garantir: os privilégios da própria casta. Não há reação – perdoem-me as exceções por confirmarem a regra – aos abusos nos mega-salários e suas fieiras de penduricalhos das corporações punitivas, capazes de chamar de “prerrogativas” até mesmo o “direito”, como disse um desembargador paulista, de comprar ternos em Miami ou o de receber auxílios-moradia (e com montanhas de atrasados!) para morar em suas próprias casas. Em plena crise institucional, cuida o presidente do STF do reajuste do Judiciário, ouve-se nas gravações.

Por aí vê-se seu apegado amor aos dinheiros do povo.

Mas deuses não pecam.

Fica isto para os seres humanos comuns, aqueles de carne e osso, que devem, diante deles, para alcançar suas Graças, praticar o dedurismo, que santifica a alma e liberta os corpos – vá lá que de tornozeleira eletrônica, durante algum tempo. Isso já se consagrou como método e generalizou-se a torcida por que “apareça mais, mais, mais”, já não importa se real ou alegado, porque todos são culpados até que provem cabalmente sua inocência, coisa rara no mundo dos “grandes”.

Não é porque os “grampeados” sejam figuras arrepiantes como Romero Jucá, Renan Calheiros ou José Sarney – haja mármore no Inferno para a trinca! – que se deve deixar de pensar na abjeção moral que é um ladrão sair de gravador no bolso a montar armadilhas para capturar outros, por cujas peles trocará livrar a sua. E ladrão-carrapato, vindo do tucanato que se manteve firmemente agarrado a sugar durante quase todo o governo petista, patrocinado por aqueles a quem agora delata –

Quem a isso resistir, ponha-se na Torre de Londres, modernamente situada em Curitiba, até que o arrependimento obtido com grades os faça ceder e confessar perante os novos deuses.

A virtude é nada sem o pecado e não haverá anjos se não houver demônios.

Há dois anos, neste país, não há nenhum problema além desta Cruzada. Até porque todos os outros, agora, são seus frutos.

Os deuses não hesitam em lançar suas pragas porque o temor converte ou submete.

O projeto autoritário de poder que nos ameaça vai além do bando de ratos da política, dos quais o ninho mais largo e tradicional é a caciquia do PMDB, ornado de satélites que lhe são os “não sei nem de que partido eu sou” e os tucanos decadentes, que só na cola arranjaram vaga na procissão.

Seu centro é mais além, no Olimpo da casta judicial-policial.

Temer os ajuda, com suas ações meritórias de demitir, destruir, fechar, desativar, tornar o Estado menor e mais desprezível do que já nos levaram cinco séculos de gente igual ou quase igual no poder.

Mas não lhes bastam os governos reféns.

Miram adiante, no Estado Policial, ao qual o indivíduo não pode resistir quase nunca, pois está desgraçado apenas pelo dedo que lhe apontam.

As coletividades humanas, porém, podem, se alguns tiverem a coragem de apontar-lhes o dedo de volta e dizer o que representam.

O fascismo.

 

Tijolaço

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