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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Sou preto, mas não sou ladrão, doutor

O abismo que nos separa...

O caminho que conduz à verdadeira democracia é longo e sinuoso

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

“Trabalhar nós trabalhamos/Porém pra comprar as pérolas/Do pescocinho da moça/Do deputado Fulano”. (Mário de Andrade, ‘Acalanto do Seringueiro’, em ‘Clã do Jabuti’, 1927)

Numa tarde de 2001, quando ainda morava perto do centro da cidade, um homem de uns 50 anos veio ao meu encontro: “Sou preto, mas não sou ladrão, doutor. Só quero o dinheiro do ônibus”.

Ele havia procurado emprego num supermercado, e queria voltar à sua casa.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Elogio à Preguiça


Renata Valério de Mesquita

No mundo acelerado, conectado e deslumbrado, um dos maiores escritores brasileiros, Milton Hatoum, respeita um ritmo mais lento, convida a pensar no lazer e vê a literatura como “uma página de resistência" à banalidade.


Numa edícula no bairro de Pinheiros, onde quase não se escuta o barulho das ruas de São Paulo, um dos maiores escritores brasileiros da atualidade encontra tranquilidade para escrever livros, colunas para o jornal O Estado de S.Paulo e palestras ministradas Brasil afora. Apesar dos muitos compromissos, Hatoum não gosta de fazer nada com pressa. “Nesse aspecto, sou profundamente amazônico. Nunca fui um entusiasta do trabalho produtivo”, afirma.

sábado, 7 de junho de 2014

Dois Irmãos de Milton Hatoum, Romance, Resenha Crítica


“ZANA”, A Melhor Mãe da Literatura Brasileira

(Romance “Dois Irmãos” de Milton Hatoum)

“Ficção é perder o olho(...)”

Colum McCann


Quando você acaba de ler o belíssimo romance “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, Editora Companhia de Bolso, além de você se encontrar em júbilo com a qualidade da obra, ficar com gosto de quero mais no paladar aguçado, ainda sai da leitura encorpado com o tamanho volume da Mãe dos dois irmãos que são elevados e revelados em todos os sentidos pela proposta do livro-obra, um clássico da literatura brasileira contemporânea. Sim, contundentes, paradoxais, Yaqub e Omar saltam aos olhos, mas, e a bendita (maldita?) Mãe?

A Mãe ZANA dos meninos no palco de Manaus, é, certamente, a melhor mãe retratada no historial da literatura brasileira como um todo. Retratando os dois irmãos em contundências e agonias, revelando-os de alto a baixo, na fluente narrativa cativadora e de qualidade, o autor está se nos apresentando página por página a mãe ZANA que gerou os gêmeos, a mãe que os amou, que os estragou e por assim dizer na criação fundou a tragédia continuada da familia até o fim.

terça-feira, 25 de março de 2014

Cinzas do Norte


Milton Hatoum

Leia um trecho Cinzas do Norte, terceiro romance de Milton Hatoum, é o relato de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la. Na Manaus dos anos 1950 e 1960, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda a vida. De um lado, Olavo, de apelido Lavo, o narrador, menino órfão, criado por dois tios mal-e-mal remediados, que cresce à sombra da família Mattoso; de outro, Raimundo Mattoso, ou Mundo, filho de Alícia, mãe jovem e mercurial, e do aristocrático Trajano.

No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Machado de Assis nunca esteve tão na moda


Embora seja difícil de rotular, é possível perceber algumas tendências que estão em voga na literatura brasileira

Marina Rossi

Para se diferenciar da literatura europeia, os romances brasileiros, que começaram a surgir na primeira metade do século 19, eram escritos com grandes doses de regionalismo, nacionalismo, exaltação da terra e das características naturais de um país que tinha acabado de declarar a sua independência. Embora esse regionalismo venha permeando a literatura brasileira através dos séculos, hoje é difícil apostar em uma característica específica que marque os romances produzidos por aqui.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O progresso que engana


Milton Hatoum –

Há poucos dias visitei uma casa na rua Saldanha Marinho, no centro de Manaus, que é também o centro da minha infância e, portanto, da minha memória.

Vi a mesma biblioteca com livros brasileiros, portugueses e franceses, a escrivaninha de cedro, os lustres antigos, os vitrais coloridos em forma de ogiva. Atravessei o longo corredor lateral que dá acesso aos quartos e à cozinha e termina num pátio cheio de vasos com avencas e tajás. No fim desse corredor, sentada numa austríaca, vi dona Maria Luiza Freitas Pinto, a professora que me alfabetizou.
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