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domingo, 7 de setembro de 2014

Um papo com a Cobra Vadia sobre preconceito

Juremir Machado

Encontrei a Cobra Vadia num terreno baldio de Porto Alegre. Amanhã explico quem é ela. Adianto que ela tem a língua viperina. Peço apenas que não a confundam com a Cabra Vadia. A Cobra estava indignada. Aproximei-me com cautela, pois tinha lido um artigo sobre cobras. Elas podem picar mesmo depois de perder a cabeça. A Cobra Vadia estava visivelmente descabelada.

– Que horror! – foi logo esbravejando.

– Que houve? – sempre falo pausadamente com desconhecidos.

– Para onde vamos?

– Não tenho a menor ideia. Pretendo ir ao cinema.

– Não se pode mais chamar negro de macaco em estádio de futebol, não se pode mais defender maus tratos a presos em emissoras de rádio, não se pode mais fazer piada de fresco – a Cobra é antiga –, não se pode mais chamar negrão de crioulo, não se pode fazer mais nenhuma brincadeira inocente e saudável. Onde vamos parar desse jeito?
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