Franz Kafka
Posôidon sentou-se no escritório, revisando as contas. A administração de todas as águas dava-lhe um trabalho interminável. Ele poderia ter tantos assistentes quanto desejasse, e de fato tinha um grande número deles, mas, como levava seu trabalho muito a sério, teimava em reconferir todas as contas e assim os assistentes de pouco lhe valiam. Não se poderia dizer que ele se divertisse com a função,- levava-a adiante simplesmente porque era o que lhe haviam atribuído; em verdade, com frequência havia requisitado o que chamava de um trabalho mais alegre, mas, sempre que várias sugestões lhe eram oferecidas, o resultado era que nenhuma delas lhe era adequada como o era sua presente ocupação.
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quinta-feira, 16 de outubro de 2014
domingo, 5 de outubro de 2014
Kafka: O Silêncio das Sereias
Franz Kafka
Comprovação de que mesmo meios insuficientes, e até infantis, podem conduzir à salvação.
A fim de proteger-se das sereias, Ulisses entupiu os ouvidos de cera e mandou que o acorrentassem com firmeza ao mastro. É claro que, desde sempre, todos os outros viajantes teriam podido fazer o mesmo (a não ser aqueles aos quais as sereias atraíam já desde muito longe), mas o mundo todo sabia que de nada adiantava fazê-lo.
domingo, 8 de junho de 2014
Um Cruzamento, Conto de Kafka
Tenho um animal singular, meio gato, meio cordeiro. É parte da herança do meu pai, mas só se desenvolveu no meu tempo, antes era mais cordeiro do que gato, mas agora tem tanto de um como do outro. Do gato a cabeça e as garras, do cordeiro o tamanho e a figura, de ambos os olhos que são brilhantes e mansos, o pelo que é suave e curto, os movimentos que tanto podem ser uma cabriola com um andar furtivo, quando brilha o sol enrosca-se no parapeito da janela e ronrona, no campo corre como louco e ninguém o consegue apanhar, foge dos gatos, quer atacar os cordeiros, nas noites de luar o seu caminho preferido é o algeroz, são sabe miar e tem medo de ratazanas, pode estar horas a fio à coca junto da capoeira, mas nunca aproveitou uma oportunidade para matar, alimento-o com leite doce, é o melhor para ele, sorve-os em tragos lentos por entre os dentes de predador.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Franz Kafka e o horror à burocracia
Franz Kafka, falecido aos 40 anos em 3 de junho de 1924, no Sanatório de Keerling, perto de Viena, sem dúvida alguma foi um dos mais enigmáticos escritores do começo do século 20. Sua narrativa - de raiz expressionista - assemelha-se a um mosaico no qual as partes parecem não afinarem-se, como se colocasse um quadro após o outro sem que houvesse uma ligação entre eles. O que os une é um tema oculto que paira impassível e impune sobre tudo: o Poder da Burocracia. Força anônima que impera. O escritor tcheco de língua alemã consagrou-se, entre tantas outras coisas, como um dos primeiros literatos denunciadores da poderosa e quase invisível máquina de moer seres humanos que, ao longo do século 20, passou a controlar tanto as sociedades do Ocidente como as do Oriente.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Franz Kafka e a Segunda-feira
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| Ah’, disse o rato, ‘o mundo torna-se cada dia mais estreito |
Ao contrário do que dizem os apologistas do fim da História, a luta de classes não se calou. No entanto, diante da assepsia publicitária por que passam os discursos contestatórios, a lógica poética de Kafka nos leva a pensar a contrapelo de nós mesmos: se o movimento da contradição histórica não for estancado e reconfigurado, continuaremos a figurar como coadjuvantes da cadeia alimentar que nos coage à frieza, à brutalidade e ao cinismo do entrechoque entre gato e rato, de modo que a "Pequena Fábula" possa receber um título mais adequado aos tempos atuais: "segunda-feira".
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