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quarta-feira, 19 de março de 2014

1964: Negacionismo


Vladimir Safatle


"Há quase 50 anos, o Brasil assistiu a um golpe militar que impôs a pior ditadura de sua história, responsável por crimes contra a humanidade, terrorismo de Estado, censura e arbítrio."

Essa frase deveria ser atualmente a descrição de fatos históricos, aceitos como evidências. Fatos que, por si só, teriam a força de provocar a indignação coletiva e o rechaço dos restos dessa época que ainda permanecem entre nós.

No entanto, para setores expressivos, tanto da população quanto daquilo que um dia foi chamado de "formadores de opinião", a frase "não é bem assim". Ela deve ser nuançada e colocada melhor em seu contexto.

1964: Desmemórias


Janio de Freitas

Minha geração e suas vizinhas, de baixo e de cima, têm dado provas agudas de falta de memória histórica. Os 50 anos do golpe de 64 solicitam de suas restantes testemunhas o que, pelo já visto a outros propósitos, tais gerações parecem não dispor no volume e na qualidade devidos, senão obrigatórios.

Mas, com pesar pela má palavra, a efeméride provoca um agravamento que assombra: às torções de memória, em uns, junta-se o não sei o quê de inúmeros historiadores, cientistas políticos, antropólogos e outros. O resultado, pelo que li e ouvi em parte de mesas redondas, é uma ininteligível balbúrdia de ficção, imprecisões e, se há acadêmicos, presunção.

1964: A ritualização da memória.


Michel Zaidan Filho:

A semana foi pródiga em comemoração. Dizia Theodoro Adorno que toda tentativa de compreender e explicar os eventos passados era uma forma de justificação. Há coisas injustificáveis e indizíveis e que, portanto, devem permanecer como estão. Tal como uma ferida que não cicatriza e que sangra a vida toda. É esta a sensação que se tem dos crimes cometidos contra a humanidade e à dignidade da pessoa humana.

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