A
segregação que antes se fazia a distância e sem afetação direta, conforme a
assepsia impessoal que vigora na violência silenciosa dos condomínios, agora
perdeu a vergonha e proclama abertamente seu mal-estar contra essa
proximidade indesejável dos pobres.
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terça-feira, 1 de setembro de 2015
Dunker: Ressentimento de classe
Um Novo Mal Estar
terça-feira, 3 de março de 2015
Kehl: Homens e Mulheres, Mínima Diferença
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Maria Rita Kehl:
Há cem anos não se fala em outra coisa.1 O falatório surpreenderia o próprio Freud. Se ele criou um espaço e uma escuta para que a histérica pudesse fazer falar seu sexo, num tempo cuja norma era o silêncio, o que restaria ainda por dizer ao psicanalista, quando a sexualidade circula freneticamente em palavras e imagens, como a mais universal das mercadorias?
Ainda assim, parece que nada mudou muito. O escândalo e o enigma do sexo permanecem, deslocados – já não se trata da interdição dos corpos e dos atos – avisando que a psicanálise ainda não acabou de cumprir o seu papel. Mulheres e homens vão aos consultórios dos analistas (e, como há cem anos, mais mulheres do que homens), procurando, no mínimo, restabelecer um lugar fora de cena para uma fala que, despojada de seu papel de lata de lixo do inconsciente (no que reside justamente sua obscenidade), vem sendo exposta à exaustão, ocupando lugar de destaque na cena social, até a produção de uma aparência de total normalidade.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Feitiços do Tempo
Contardo Calligaris
"Feitiço do Tempo" (1993), de Harold Ramis, é um de meus filmes-feitiço, que não são necessariamente obras-primas: são os que não posso me impedir de rever até o fim, a cada vez que, zapeando, esbarro neles.
Por que será que "Feitiço do Tempo" me imobiliza, de olhos abertos, na cama ou na poltrona, até de madrugada? Já me apaixonei várias vezes por Andie MacDowell, mas isso não seria suficiente: o que me pega, no filme, é a história.
"Feitiço do Tempo" (1993), de Harold Ramis, é um de meus filmes-feitiço, que não são necessariamente obras-primas: são os que não posso me impedir de rever até o fim, a cada vez que, zapeando, esbarro neles.
Por que será que "Feitiço do Tempo" me imobiliza, de olhos abertos, na cama ou na poltrona, até de madrugada? Já me apaixonei várias vezes por Andie MacDowell, mas isso não seria suficiente: o que me pega, no filme, é a história.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
A Copa do Mundo é nossa
Christian Ingo Lenz Dunker.*
Quando era mais destemido e menos roliço quase fui jogador de futebol profissional. Jogava no gol e tinha algo assim como um “porte promissor”. Depois psicanalista, mudei de lado, da defesa para o desejo. Aposentada a esperança juvenil de glorioso futuro, não sem manter-me no solo maldito onde nem grama nasce, jogava recreativamente com antigos companheiros de concentração, preparadores físicos, atletas de médio, pequeno ou pequeníssimo reconhecimento. Dos velhos quase-jogadores ouvia um conselho sábio, que foi crescendo em importância com o tempo: no futebol, quando você se torna macaco velho, não torce mais para alguém ganhar ou perder, mas para ninguém se machucar.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
A liberação sexual
Contardo Calligaris
Uma menina de 12 anos grava um vídeo em que ela se penetra com um boneco e o manda para um correspondente on-line. A mãe da menina descobre o vídeo e seu destino; ela agradece a Deus, porque a menina não mostrou seu rosto. Logo, ela fica triste, pensando que a vida sexual da filha deveria ter começado de outra forma, numa relação terna, com alguém de verdade.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
A mulher na manga e as armadilhas da percepção
Todos já viram alguma notícia sobre aparições de santos, pessoas mortas, anjos e demônios em lugares inusitados: manchas em vidraças, espectros em fotografias, até mesmo em pizzas e torradas, como é comum ler em notícias após a morte de personalidades famosas. Pois bem, esta semana este fenômeno aconteceu em minha própria casa: uma mancha em uma manga na minha fruteira tinha a aparência de uma mulher, com parte do rosto coberto por seus cabelos.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Uma vida com significado
Miriam Goldemberg
"Em busca de sentido" é o emocionante relato do psiquiatra judeu Viktor Frankl sobre como ele sobreviveu, de 1942 a 1945, em quatro campos de concentração, após a mãe, o pai, o irmão e a esposa terem sido assassinados pelos nazistas.
Ele morreu em 1997, aos 92 anos, depois de publicar inúmeros livros com uma proposta de análise existencial elaborada a partir da trágica experiência.
"Em busca de sentido" é o emocionante relato do psiquiatra judeu Viktor Frankl sobre como ele sobreviveu, de 1942 a 1945, em quatro campos de concentração, após a mãe, o pai, o irmão e a esposa terem sido assassinados pelos nazistas.
Ele morreu em 1997, aos 92 anos, depois de publicar inúmeros livros com uma proposta de análise existencial elaborada a partir da trágica experiência.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
A Cultura da Indiferença
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O amor não acaba no momento em que passamos a odiar o outro, mas quando nos tornamos indiferentes a ele; aí surge o narcisismo de alta periculosidade Christian Ingo Lenz Dunker e Gonçalo Viana O livro Cultura do narcisismo escrito por Christopher Lash em 1979 é um clássico. O autor descreve o modo de vida americano nos anos 70, retratando uma sociedade na qual a participação na esfera pública entrava em declínio e as pessoas enfrentavam dificuldades para reconhecer sua própria história. |
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Amor de Máquina
Como seriam nossas relações com uma máquina que fosse capaz de crescer, evoluir, aprender igual a um ser humano? E essa máquina, que talvez se tornasse autônoma, como ela se relacionaria conosco?
Uso uma distinção famosa, entre apocalípticos e integrados, feita por Umberto Eco em 1965. Os apocalípticos achariam que, se as máquinas se tornassem autônomas, elas planejariam o fim da humanidade: numa revanche parricida contra seu criador, elas seriam exterminadoras do futuro.
Os integrados pensariam que máquinas autônomas serão nossos companheiros e companheiras ideais, numa nova era em que nunca nos faltarão amigos.
Uso uma distinção famosa, entre apocalípticos e integrados, feita por Umberto Eco em 1965. Os apocalípticos achariam que, se as máquinas se tornassem autônomas, elas planejariam o fim da humanidade: numa revanche parricida contra seu criador, elas seriam exterminadoras do futuro.
Os integrados pensariam que máquinas autônomas serão nossos companheiros e companheiras ideais, numa nova era em que nunca nos faltarão amigos.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Ambiente familiar de agressão causa problemas psiquiátricos no adulto
Crescer em ambiente familiar de agressão pode aumentar problemas psiquiátricos na vida adulta
As chamadas "famílias disfuncionais" causam uma série de danos emocionais desde a infância
A família é quem cria, já diz o ditado. Mas muitas vezes o ambiente de criação pode trazer problemas. Vide o personagem Félix (Matheus Solano), da novela Amor à Vida (no ar às 21h na Rede Globo). O rapaz, que é homossexual, sempre sofreu preconceito do pai César (Antônio Fagundes), que queria que ele fosse o típico "machão". Por isso, ele nunca recebeu amor ou atenção da figura paterna, se sentindo não amado. As falhas de caráter que o personagem apresenta ao longo da trama também estão relacionadas com a sua vivência em meio a uma família disfuncional, aquela que transmite um ambiente egoísta, de desamor e pouco solidário aos filhos.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Nome se recebe, história se reescreve…
Era uma vez um menino, um adolescente. Era um rapaz tímido, vivia com a mãe e os avós. Ele tinha sido registrado pelo pai, sua mãe dizia que não lembrava bem do pai dele, teria sido um namoro muito rápido, fugaz. O menino, em função de sua timidez e sua dificuldade de relacionamento com as pessoas, foi levado a uma psicanalista pelos avós. Contava a ela suas histórias poucas, que eram também ralas de cores e emoções. Com o passar do tempo, conversa vai, conversa vem, ele começa a dizer que fica muito intrigado com o fato da mãe nem sequer lembrar do pai – coisa bem esquisita, aquela!
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Qual romance você está lendo?
Contardo Calligaris
Sempre pensei que fosse sábio desconfiar de quem não lê literatura. Ler ou não ler romances é para mim um critério. Quer saber se tal político merece seu voto? Verifique se ele lê literatura. Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Mesma sugestão.
E, cuidado, o hábito de ler, em geral, pode ser melhor do que o de não ler, mas não me basta: o critério que vale para mim é ler especificamente literatura --ficção literária.
sábado, 28 de setembro de 2013
Cultura segregacionista
Frei Betto
A segregação é uma cultura e impregna o instinto. A reação ao diferente é impulsiva, irracional. Como a do ianque que despreza muçulmano por identificar nele um terrorista em potencial; do judeu sionista em relação a árabes; do branco racista frente ao negro; do cristão homofóbico diante de um homossexual.
Essa cultura nefasta impregna também governos e instituições. Chega a ser atávica, inconsciente. A família diz não ser racista, até o dia em que a filha, branca, loura, de olhos claros, apresenta o namorado negro…
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
"Nós, o Brasil e a banalidade do mal"
Marcia Tiburi
Hannah Arendt
Hannah Arendt, filósofa que dá nome ao filme de Margarethe von Trotta, é autora de uma das obras filosóficas mais importantes do século 20. A diretora opta por retratar a filósofa como uma pessoa comum, a professora envolvida com seu trabalho acadêmico, suas aulas e pesquisas. Fixa o enredo do filme no período em que Hannah Arendt escreveu seu polêmico Eichmann em Jerusalém. Tenta mostrar o que se passava com a filósofa, o cenário que a motivou a escrever o livro cujo conteúdo foi tomado por muitos como um escândalo. O motivo era a análise desmistificatória de Adolf Eichmann, o carrasco nazista capturado na Argentina e julgado em Jerusalém em 1962. Esperava–se desse homem que fosse um monstro, um ser maligno, um louco, cruel e perverso. A percepção de Arendt acerca do caráter desse personagem histórico, de sua postura comum que o fazia igual à tanta gente, causou mal estar.
Hannah Arendt, filósofa que dá nome ao filme de Margarethe von Trotta, é autora de uma das obras filosóficas mais importantes do século 20. A diretora opta por retratar a filósofa como uma pessoa comum, a professora envolvida com seu trabalho acadêmico, suas aulas e pesquisas. Fixa o enredo do filme no período em que Hannah Arendt escreveu seu polêmico Eichmann em Jerusalém. Tenta mostrar o que se passava com a filósofa, o cenário que a motivou a escrever o livro cujo conteúdo foi tomado por muitos como um escândalo. O motivo era a análise desmistificatória de Adolf Eichmann, o carrasco nazista capturado na Argentina e julgado em Jerusalém em 1962. Esperava–se desse homem que fosse um monstro, um ser maligno, um louco, cruel e perverso. A percepção de Arendt acerca do caráter desse personagem histórico, de sua postura comum que o fazia igual à tanta gente, causou mal estar.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Modernidade triste?
Contardo Calligaris
No século 4 da nossa era, nos mosteiros da Europa, a tristeza, "accidia" em latim, era considerada pecado grave, e as regras monásticas se esforçavam para identificá-la e combatê-la. Mesmo assim, muitos monges continuavam tristes.
A Europa era uma desolação. Das janelas de seus oásis de (relativa) tranquilidade, os monges podiam enxergar o horror. A cultura clássica, grega e romana, era esquecida --ignorada pela imensa maioria de iletrados ou perdida no descaso pelos manuscritos antigos.
domingo, 1 de setembro de 2013
Prazer ou Poder
Nossa estranha sociedade sugere exibir dinheiro ou poder, diante da incapacidade de sentir. Também por isso, nova guerra é iminente
Katia Marko
“Me nego a viver em um mundo ordinário,
como uma mulher ordinária.
A estabelecer relações ordinárias.
Necessito o êxtase.
Não me adaptarei ao mundo. Me adapto a mim mesma.”
Anais Nin
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
O que é uma mãe suficientemente boa ?
Depressão e autenticidade
Vladimir Safatle
Um estudo publicado no "Journal of Clinical Psychology" afirma que em torno de 20% das mães terão um episódio depressivo nos primeiros três meses após o parto, sendo que 7,1% terão um episódio grave. Ou seja, uma em cada cinco mulheres passará por depressão ao tornar-se mãe.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Inventário de coisas e delírios
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| Manto da Anunciação |
Maria Fernanda Rodrigues
Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) assumiu uma árdua tarefa quase no final de sua vida: representar tudo o que existia na Terra o que ele conhecia e o que ele não conhecia. A missão foi dada pela voz que o guiava, e ele, obediente, pôs-se a escrever, pintar, bordar o mundo. Bispo era Jesus. Acreditava mesmo nisso. Para os outros, só mais um louco da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, que passava seus dias acumulando canecas, botões, pregos, cacos de vidro, sapatos, uniformes que, desfeitos, virariam linhas de bordado, etc. Viveu anônimo em seu delírio até o ano de 1980, quando Samuel Wainer Filho fez uma reportagem sobre o manicômio para o Fantástico.
Salmos chilenos
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| O justo lugar no mundo |
Dias atrás entrei na catedral de Santiago do Chile. Minha mulher, discípula de Guimarães Rosa, para quem "quanto mais religião melhor", adora todo e qualquer santo.
Eu, mais miserável nesse assunto, apesar de não religioso, sou facilmente capturado pelo aspecto estético e sublime de templos sagrados. Foi um prazer ver e ouvir aquela missa "en chileno".
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