terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Conflitos de interesse em medicina




Riad Younes



Um médico que ganha uma porcentagem sobre a venda de um determinado remédio pode, eu disse pode, ter a tendência de prescrever mais este remédio para seus pacientes. Um cirurgião que ganha uma porcentagem ou um benefício cada vez que utilizar um equipamento pode, novamente enfatizo pode, ter a tendência de indicar mais frequentemente o uso deste equipamento em questão.

Um médico que ganha proporcionalmente ao uso de um laboratório ou uma enfermaria ou um centro cirúrgico pode ficar inclinado, conscientemente ou não, a encaminhar mais doentes para fazerem exames, se internarem ou serem operados. Estas situações de conflitos de interesse na medicina não são raras, nem hipotéticas. 



O código de ética dos conselhos regionais e federal de medicina se esforça em deixar claro o que médico pode e não pode fazer, para que a imparcialidade de seu julgamento, da indicação do tratamento, e do uso de medicamentos, técnicas ou equipamentos, seja completa, e isenta de qualquer influencia de ordem financeira.

Não duvido, sequer um momento, da consciência intrínseca dos médicos. Da maioria pelo menos, mas não de todos. E uma obrigação nossa, de todos os segmentos da sociedade, delimitar os terrenos potencialmente férteis para o crescimento das ervas daninhas do conflito de interesse. Hoje em dia, cada vez mais encontramos decisões tomadas por médicos e por administradores de hospitais, nas mais diversas especialidades, onde a "possibilidade" de influência direta do benefício, do lucro ou do privilegio pessoal do médico pode suplantar o sagrado benefício do paciente.

A atividade médica nem sempre é um nítido preto no branco. Boa parte de nossas decisões ficam em zona cinzenta, com varias opções possíveis em cada momento. Cabe ao médico escolher a decisão mais adequada naquela situação, tendo em vista sempre o benefício máximo ao paciente, independente de maior ou menor lucro pessoal.

O ganho do médico deve sempre ser um subproduto da medicina, e não sua meta maior. Se o bolso tiver influência, por mínima que seja, sobre a decisão do médico frente a seu paciente, a confiança no profissional, e na medicina como um todo se perderá.

Nossa sociedade, governo, seguros de saúde e indivíduos, estaria gastando cada vez mais para beneficiar cada vez menos os doentes e seus familiares. A doença se transformará em fonte de lucro para algumas poucas instituições e seletos profissionais. Naquele dia, o Mercado teria vencido a arte e a beneficência. E vencido a sociedade toda.


Riad Younes é professor Livre Docente da Faculdade de Medicina da USP. Médico do Centro Avançado de Oncologia do Hospital São José e do Núcleo Avançado do Tórax do Hospital Sírio Libanês, São Paulo. Especialista em câncer de pulmão. Foi Diretor Clínico do Hospital Sírio Libanês de março 2007 a março 2011.

Terra Magazine.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...