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quinta-feira, 21 de junho de 2018

O tigre

Luiz Fernando Veríssimo

Aqui, além de desenvolvimentistas que não ousam dizer seu nome e monetaristas que não saíram do armário, há os incongruentes de esquerda e os incongruentes de direita

Contam que faziam um teste com candidatos a cargos importantes em instituições e grandes empresas para conhecer suas tendências sexuais. O homem era deixado sozinho numa sala com um corte de veludo grená, e observado através de uma câmera de TV. Se ignorasse o veludo grená, seria considerado normal e contratado. Se alisasse o veludo grená para sentir sua textura, seria aceito, mas sujeito a reavaliações periódicas. Se segurasse o corte de veludo grená na frente do corpo e se olhasse no espelho para ver se ficava bem, era vetado.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Traidores

Luis Fernando Veríssimo

– Immanuel Wallerstein, um dos bons pensadores da esquerda americana, escreveu sobre a distância entre o conceito e a realidade do papel da burguesia na história do capitalismo.

Segundo Wallerstein, a “traição da burguesia”, quando não cumpre o papel que lhe é atribuído no que chama de mito dominante do marxismo clássico, não é uma anomalia, mas uma constante.

A realidade que desmente o conceito é que a burguesia só fez o que tinha que fazer num determinado período histórico, quando acabou com o feudalismo, e que principalmente a partir do século XIX não faz outra coisa senão frustrar os que esperavam que ela terminasse o serviço, eliminando qualquer ideia de separação entre servos e senhores hereditários.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Um governo para os pobres, mau exemplo, ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real.


A ilusão

Luis Fernando Veríssimo

Gosto de imaginar a História como uma velha e pachorrenta senhora que tem o que nenhum de nós tem: tempo para pensar nas coisas e para julgar o que aconteceu com a sabedoria — bem, com a sabedoria das velhas senhoras. Nós vivemos atrás de um contexto maior que explique tudo, mas estamos sempre esbarrando nos limites da nossa compreensão, nos perdendo nas paixões do momento presente. Nos falta a distância do momento. Nos falta a virtude madura da isenção. Enfim, nos falta tudo o que a História tem de sobra.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Veríssimo: um governo para os pobres era uma ameaça para o poder real


Em análise sobre o possível impeachment de Dilma Rousseff, o escritor Fernando Verissimo diz que o processo vai além do PT e da figura do ex-presidente Lula:

“Foi o fim da ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima”.

Brasil 247

domingo, 23 de agosto de 2015

O Vácuo; Luis Fernando Veríssimo


– Os manifestantes contra o governo sabem o que não querem — a Dilma, o Lula, o PT no poder —, mas ainda não pensaram bem no que querem

Houve um tempo em que os cachorros corriam atrás dos carros. Era uma cena comum: vira-latas perseguindo carros, latindo, como se quisessem expulsar um intruso no seu meio. Às vezes viam-se bandos de cães indignados, perseguindo carros que passavam, e dava até para imaginar que um dia conseguiriam alcançar um, dos pequenos, pará-lo, cercá-lo e… E o quê? Comê-lo? Nunca ficou claro o que os cachorros fariam se alcançassem um carro.

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